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segunda-feira, 8 de junho de 2015

MENINO DO INTERIOR DO CEARÁ INSPIRA EDUCADORES NA BETT.


 MANOEL VIROU O JOGO AOS 46 MINUTOS DO SEGUNDO TEMPO.
A seção final dedicada aos desafios da conectividade no início da noite de quinta-feira na Bett, maior feira de educação do Brasil, terminava em clima de desânimo – os desafios pareciam grande demais – quando a mediadora Anna Penido, diretora-executiva do Instituto Inspirare, decidiu contar a história de Manoel Lima, uma espécie de aluno-símbolo da Geekie.
“É um garoto de Icó, no interior do Ceará, com uma história de vida difícil. Ficou órfão de pai aos 4 anos e a mãe teve de criar os quatro filhos. Sempre foi bom aluno, mas precisou começar a trabalhar cedo, em um banco. Fazia o ensino médio à noite e ele mesmo diz que não conseguia aprender nada, porque chegava cansado na escola.”
DINHEIRO DE RIFA PARA TER WI-FI.

“Em 2013, o governo do Ceará cadastrou todos os alunos do 3º ano do ensino médio no Geekie Games (projeto que combinava simulados do Enem e acesso à nossa plataforma online de aprendizagem adaptativa da Geekie)”, prosseguiu Anna. “Manoel comprou um notebook com suas economias e começou a estudar cada vez mais pela plataforma. Os próprios professores estimulavam o garoto. ‘Se você está aprendendo no computador, vai em frente’.”
“A escola do Manoel tinha acesso à internet, mas não tinha wi-fi. Ele e outros alunos mais nerds arrecadaram dinheiro em quermesses, rifas, e compraram o equipamento para a escola.”
“É uma iniciativa bacana, que mostra o potencial do empoderamento de alunos e professores para encontrar soluções que sirvam de referência para todas as escolas públicas. Ah, e só para vocês saberem: o Manoel entrou em um curso de Ciências Biomédicas e já está até trabalhando em um hospital de Fortaleza.”
 ÁGUA CORRENTE, SANITÁRIOS E COZINHA.

A história de Manoel foi o contraponto bem-vindo ao quadro apresentado pelo secretário de Educação do Distrito Federal, Júlio Gregório, representante do Consed (Conselho dos Secretários Estaduais de Educação), sobre a infraestrutura das escolas brasileiras. Um panorama descrito por um dos participantes da mesa como “angustiante”.
Os dados referem-se a cerca de 194 mil escolas, públicas e privadas, da educação básica. Você sabe o que 44,5% dessas escolas têm? Água corrente, sanitários e cozinha. E só. Estão no nível considerado elementar. “Mesmo em Brasília, que é uma rede pequena, temos que pagar caminhões-pipa para levar água a algumas escolas”, disse Gregório. “E olha que lá, bem ao contrário de São Paulo, os reservatórios usados no abastecimento estão transbordando com as últimas chuvas.”
Voltando aos números, cerca de 40% das escolas brasileiras estão no nível básico em termos de estrutura. Isso se traduz em dispor de sala para diretoria e itens como TV, DVD, computador e impressora. “Mas quando você vai imprimir alguma coisa, não tem tonner. Quando tem tonner, falta papel. Quanto tem tonner e papel, o computador está pifado. Quando tudo isso funciona, falta energia”, disse Gregório.
No nível adequado estão apenas cerca de 15% das escolas. Estas têm sala de professores (!), biblioteca, espaço de informática e acesso à web.
O 0,6% QUE DEVERIA SER MAIORIA.

Por fim, só 0,6% (isto mesmo, só 0,6%) das escolas estão no nível avançado. Isso significa que eles têm tudo o que as demais têm e itens como laboratórios de ciências mais sofisticados e estrutura adequada para receber alunos com necessidades especiais. “Esse tipo de estrutura você só encontra em escolas públicas em poucas unidades mantidas diretamente pelo governo federal, como o Colégio Pedro II, no Rio, que têm um custo por aluno muito superior aos das redes municipais e estaduais”, disse Gregório.
INVEJA DO URUGUAI.

Agora falando só das escolas públicas, pelo Censo de 2013 do Ministério da Educação, pouco mais da metade das escolas públicas brasileiras (51,9%) dão aos alunos acesso ao computador – ou seja, o computador, para muitos estudantes brasileiros, é aquele equipamento que fica na sala da diretoria, para uso administrativo. Essa porcentagem cai para 32,2% em regiões como a Norte.
Mesmo quando o acesso ao computador ao existe, a relação entre alunos e equipamentos é desproporcional. Na média brasileira, cada computador atende a 34 estudantes. Dá inveja do Uruguai, com seus cerca de 4 milhões de habitantes, que já garantiu há anos que todo aluno tenha seu próprio laptop.
AGENDA POLÍTICA E ‘CURRÍCULO DE LOUCO’.

O Consed desenvolveu a estratégia que lhe cabe para lidar com o problema. “Criamos uma agenda política, atrelada às metas do Plano Nacional de Educação”, explicou Gregório. Para o secretário, essa pressão política é chave para ajudar a tirar do papel metas como a de universalizar, até o quinto ano de vigência do PNE, o acesso à internet de banda larga nas escolas públicas e triplicar a relação computador/aluno no ensino básico.
Outra frente dessa extensa agenda política não tem a ver com a estrutura, mas a afeta diretamente: é atacar a ausência de uma definição curricular e pedagógica capaz de abrir espaço para o uso da tecnologia. “Temos um currículo de louco, só no ensino médio são 14 disciplinas. E os projetos em andamento na Câmara para reformulá-lo pioram tudo”, disse Gregório. “Para dar conta do currículo você tem que engatar aulas de 45 minutos uma atrás da outra. Se você quiser introduzir tecnologia num quadro assim, fica sem um mínimo de reflexão sobre o uso.”
INOVAÇÃO É TIJOLO?.


A agenda do Consed é bem-vinda. Mas pode ser complementada pela agenda paralela de empreendedores, terceiro setor e dos diretamente interessados, como professores e alunos. Porque parte do drama da educação brasileira hoje é que ainda temos de resolver problemas do século 19 incorporando soluções do século 21. O desafio está lançado e a Geekie está aberta a participar. Até porque, como disse Anna numa conversa informal com o Infogeekie depois do debate, neste país desigual você ainda tem escola de pau-a-pique, como ocorre no interior do Maranhão, mas os alunos cobram mais tecnologia. “Se você usa o pau-a-pique como única referência, passa a tratar tijolo como inovação.”
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